terça-feira, junho 20, 2006

Bóias-frias cyberpunks

Ontem no fretado (onde mais?) um colega meu me passou um link para um site chamado Rent a Coder. É um serviço bacana que se eu tivesse conhecido na época de faculdade ia facilitar a minha vida de garoto de programa. Basicamente eles fazem o meio-de-campo entre pessoas que precisam de pequenas soluções de software com programadores do mundo inteiro. Tudo muito bem organizado e aparentemente seguro.

Olhando o site, me chamou a atenção um link para uma reportagem no Wall Street Journal (aqui replicada no próprio site Rent a Coder) e resolvi dar uma olhada para ver o que eles achavam do serviço. A matéria faz uma comparação interessante entre os programadores que trabalham através do Rent a Coder e trabalhadores braçais nas grandes cidades americanas. Tipo bóias-frias e chapas para quem mora no Brasil.

Lendo a reportagem uma série de imagens veio à minha cabeça sobre como já estamos vivendo em um romance do William Gibson. Não que implantes cibernéticos já possam ser comprados em qualquer periferia das metrópoles japonesas. Mas a idéia de milhares de programadores em países do leste europeu, oriente médio e sudeste asiático, fazendo trabalhos de programação por 25 dólares (o trabalho, não a hora) através da Internet para pessoas em países do primeiro mundo não deixa de ser um lado decadente do mundo cyberpunk descrito por Gibson em suas histórias.

Lembro que quando comecei a me interessar por computação, programação era o mais próximo de feitiçaria que eu poderia aprender. E isso foi há pouquíssimo tempo, uns 20 anos mais ou menos. Naquela época, eu conseguia ganhar um bom dinheiro (para os meus padrões adolescentes) fazendo programas para pequenos negócios como locadoras de vídeo e restaurantes. Computadores eram coisas estranhas e misteriosas naquela época, e mesmo com poucos conhecimentos (Clipper?!) não faltava trabalho nem a admiração dos "adultos" sobre como eu dominava aquela besta misteriosa chamada computador.

Hoje, com a banalização da tecnologia e o boom da Internet, computadores são eletrodomésticos que a gente compra no supermercado. Software é commodity. Hacker (pelo menos no que o imaginário popular entende por hacker) é pouco mais que um pixador de muros. E Johnny Case não vive em Tokyo ou no Sprawl, mas em uma métropole superpopulada da Índia ou em alguma ruína do Afeganistão.

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