Movimento pendular ...
Comentando uma mensagem no blog do Fabinho sobre como a mídia influencia a sociedade, fiquei com vontade de escrever um pouco mais sobre o assunto.
O Fabinho estava questionando até onde os valores sob os quais vivemos são ditados pela mídia de entretenimento. Ele propõe que já perdemos de vista a diferença do que é real e do que é uma realidade paralela imaginada pelos roteiristas de televisão.
Ao comentar a mensagem, eu escrevi que vejo os valores, a ética e os costumes em constante mutação. Uma espécie de evolução darwiniana do nosso modo de ser, agir e ver o mundo. Mas por que evolução darwiniana? Muito simples, acho que as pessoas mudam por experimentação. Aquilo que dá certo, é preservado e vai tornando-se um valor mais forte na sociedade. Aquilo que dá errado é descartado. O problema é que isso não é uma ciência exata e os critérios de seleção natural não são simples como "indivíduos mais rápidos sobrevivem porque o leão não consegue matá-los para comê-los".
Soma-se a isso o fato de que acho que o ser humano é movido a extremos. A galera move-se numa direção e, quando não dá certo, tende a ir na direção oposta de forma extrema. E assim vai oscilando até encontrar um ponto de equilíbrio, numa espécie de movimento pendular. Exemplo: eu nasci no início da década de 70 e fui criado com uma certa liberdade mas ainda com uma boa dose de imposição de disciplina por parte dos meus pais. Mas existe uma geração que veio um pouco depois da minha, que já foi criada na base do "é proibido proibir". Pais que não colocavam limites para os filhos seja por convicção (recalque pela forma que foram criados), consciência pesada porque não tinham tempo para os filhos ou medo de "traumatizar" as crianças ao não darem tudo o que queriam.
O resultado disso, é que hoje temos andando por aí pessoas que não estão nem aí com os outros, extremamente individualistas e que têm dificuldades de assimilar situações onde são contrariadas. Isso gerou um questionamento da sociedade do tipo "Epa! Isso não pode estar certo!". O resultado disso, é que hoje existe uma geração de pais que estão buscando um meio-termo. Tentando colocar limites e disciplina, mas ao mesmo tempo evitando cercear o diálogo entre pais e filhos que foi uma conquista da geração do excesso de liberdade. Ou seja, a tendência é a coisa acomodar na região do bom senso, mas não sem antes a experimentação ir aos extremos. Um pêndulo.
E isso vale para muito do que fazemos, somos e vivemos.
O pêndulo na mídia
Voltando um pouco à questão específica da mídia, acho que ela serve como uma espécie de amplificador deste processo. É claro que a mídia busca impor os pontos de vista de seus controladores. Mas este processo é afetado por dois fatores importantes:
O primeiro é que os tais pontos de vista de quem controla a mídia está em constante mutação. Seja porque os indivíduos que controladores mudam, seja porque os interesses mudam ou porque as pessoas mudam e evoluem (ou involuem, mas eu sou otimista). Isso é uma consequência do que estou propondo aqui então não vou me extender nisso.
Já o outro fator é que corporações de mídia, e em particular as de mídia de entretenimento, são empresas com o objetivo de ganhar dinheiro. Para ganhar dinheiro essas corporações tem que produzir conteúdo de boa aceitação junto à massa. E o bom senso indica que isso não combina com impor pontos de vista.
Na maior parte, o conteúdo do entretenimento vai na linha do que é seguro. O raciocínio dos executivos é que se o jogo XYZ era um first-person shooter (FPS) e vendeu tantos milhões, se for lançado um jogo similar deverá ter uma aceitação parecida. Se o último filme de dinossauros teve boa bilheteria, então outro filme de dinossauros deve ter desempenho bom também. O maior exemplo disso são séries como C.S.I ou Law and order (e a novela das 6!).
A pegadinha é que eles não podem fazer a coisa exatamente igual (a não ser, é claro, no caso da novela das 6). Tem que ter o tal do "plus a mais", ou para usar a palavra da moda, tem que ter um diferencial. Oras, isso não é nada além de introduzir mutações para ver o que dá certo e o que não dá. Algumas vezes, estas mutações vão enfatizar uma característica já existente e que se acha desejável (o próximo FPS será mais violento!) ou introduzir algo novo (o tal do twist ...). Se a mutação der certo, os produtores vão seguir naquela direção como um touro desembestado. Se não der, vai demorar bastante para alguém tentar aquilo de novo.
E o que é dar certo ou não dar certo? É a aceitação do público. É o que faz o pêndulo continuar a ir numa direção ou reverter para outro sentido. E isso é outra maneira de dizer que o público molda a mídia tanto quanto o contrário. Ou que cada um tem a televisão que merece ... ;-)
Formação de opinião
Antes de terminar (afinal, preciso trabalhar e hoje tem jogo do Brasil), acho importante enfatizar que a despeito do que escrevi acima, eu concordo que a mídia é um instrumento forte de formação (manipulação?!) de opinião. Exemplos para isso não faltam, desde o famoso debate entre Lula e Collor "editado" pela Globo até a crescente aceitação do homossexualismo no mundo (que é uma boa coisa, por sinal).
Mas mesmo esse poder de persuasão tem seus limites. Um povo mais educado e com potencialmente mais discernimento iria restringir muito a eficácia da edição da Globo.

1 Comentários:
A ideia do movimento pendular eh genial, parece que eh assim mesmo que certas coisas acontecem (Comunismo! Capitalismo! Social Democracia! Liberalismo!). Muito bem observado, Pla.
A ultima afirmacao: "um povo mais educado..." eh verdade. No entanto, a propria Globo contribui e muito para o "desesclarecimento" da populacao, e continua mantendo o monopolio - nao so de negocio, mas de mensagem.
Fabio
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